O Evento

Quando se fala em acessibilidade e na importância de adaptar os sites para melhorar a usabilidade, normalmente a primeira idéia é de que é um esforço que vai gerar um custo alto, produzir um resultado feio e beneficiar apenas uns tantos portadores de deficiências . São mitos e pré-conceitos dos quais eu confesso que também compartilhava.

Estive ontem no encontro sobre Acessibilidade na Web, que aconteceu no Instituto Infnet, no Rio de Janeiro, onde foi ministrada uma série de palestras debatendo e discutindo questões sobre a importância de garantir de forma universal o acesso a informações na internet.

O assunto é de grande importância não apenas para ONGs e portadores de deficiência, mas também para webdesigners, desenvolvedores, empresas, blogs, jornais, bancos, órgãos governamentais, e para a população em geral. O barateamento e universalização das formas de conexão à rede aumentam o público e incentivam a adoção de novas estratégias e posturas na produção, formatação e exibição do conteúdo.

Esforços de padronização no desenvolvimento para web e a popularização de das técnicas de SEO propiciam a separação entre as camadas de conteúdo e de apresentação, estimulando melhorias em acessibilidade. Leis diretrizes, e padronizações são criadas para garantir que os dados estejam acessíveis a todos, e aos poucos o panorama da web começa a ser mais inclusivo.

Mais ainda há muita coisa a mudar, como foi dito no evento acessibilidade não existe como valor absoluto, e sim como uma meta a ser perseguida através de atitudes a serem adotadas.

Um ponto em comum entre todas as palestras foi a insistência na importância de se seguir os padrões web e de como uma marcação semântica feita corretamente (tabelas, títulos e outros elementos dos documentos) e separada dos elementos de formatação de texto e do impacto desses fatores no uso de tecnologias assistivas como leitores de tela.


As palestras

Horácio Soares

Quem abriu o evento foi Horácio Soares, do Digital Acesso, empresa especializada em acessibilidade em soluções web. Já havia assistido sua palestra no BlogCamp RJ 2011, mas apesar de vários pontos em comum com a apresentação anterior (afinal de contas, o assunto e o palestrante eram os mesmos), diferentemente do que eu esperava não se limitou a uma repetição do mesmo enfoque, abordando o tema de forma bem mais aprofundada.

Comentando sobre os 4 anos de lançamento do vídeo “Acessibilidade web: Custo ou benefício“, Soares chamou atenção para os principais obstáculos encontrados naquela época que prejudicavam a acessibilidade

  • imagens sem os campos de descrição adequados
  • ausência de semântica nas páginas e documentos
  • menus dropdown e outros elementos acessaveis somente pelo mouse
  • sites inteiros em flash
  • uso generalizado de captchas – que só atrapalham os usuários e podem ser facilmente quebrados com o webvisum.
  • teclado virtual em sites de bancos

Apesar do flash estar caindo muito em desuso por questões de SEO, os outros problemas ainda se encontram presentes hoje em dia, ao lado de novos outros a serem enfrentados, como o uso crescente do ajax, links descontextualizados do tipo “clique aqui” ou “saiba mais”, páginas usando refresh em vez de redirect, SEO black-hat, popups e outros elementos como lightbox, e a disseminação do uso de mídias como vídeos, fotos e audio devido à popularização da banda larga, mas sem o devido cuidado com acessibilidade.

Falou da importância de seguir padrões estabelecidos, WAI-ARIA o suporte a acessibilidade previsto no HTML 5, técnicas como Landmarks e promessas para o futuro do desenvolvimento web, mostrou como as técnicas de SEO cada vez mais valorizadas acabam contribuindo para a acessibilidade ao dar preferência a páginas mais limpas e leves. Mas por outro lado ainda sobram maus exemplos: Soares mostrou sites onde a usabilidade foi deixada totalmente de lado como no caso  do Banco do Brasil com a campanha “Eu faço acontecer“, ou o site da TAM (que chegou a ser trending topic no twitter).

Citou ainda aspectos jurídicos como o Decreto de Lei 6949, que  exige que todas as pessoas tenham direito ao acesso à informação, independente de classe ou deficiência e o caso do Banco Real que durante a junção com o Santander perdeu várias funções de acessibilidade e teve de enfrentar multas de até R$ 5 mil ao dia.

Soares ressaltou a importância de se criar páginas simples e bem estruturadas, não só para garantir aspectos de acessibilidade para deficientes mas por questões de infra-estrutura, uma vez que no Brasil a banda larga não é difundida da mesma forma para todas as regiões, e uma recente pesquisa demonstrou que quase metade das queixas quanto a dificuldades de uso da internet se referem a demora para carregamento das páginas. Uma metodologia interessante sugerida para o desenvolvimento é a filosofia “Mobile First“.

Acessibilidade não é um custo e sim um investimento, e pensando “fora da caixa” é possível ter um produto bonito, funcional e acessível. Um grande exemplo é a Apple, cujos produtos são acessíveis e cegos, por exemplo, podem usae iPads e iPhones sem o menor contratempo.

Lêda Spelta

A psicóloga, programadora e analista de sistemas é cega e demonstrou uma impressionante desenvoltura não só como palestrante como na operação do computador. Ela demonstrou na prática a navegação em documentos através de leitores de telas e exemplificou mostrando a diferença entre documentos acessíveis e não-acessíveis, não só em HTML mas também em PDF, DOC, Excel e PowerPoint

Lêda ainda mostrou como práticas como evitar uso de colunas, aplicar tags e descrições apropriadas, indicar corretamente o formato e tamanho dos links de download, descrição de imagens de acordo com o contexto melhoram a questão da acessibilidade. Salientou a importância da marcação semântica para facilitar o uso de leitores de tela: quando feita corretamente e de acordo com os padrões web, garante que seu site será acessivel para tecnologias assistivas que ainda não foram nem inventadas.

Chamou a atenção para a importância da presença de índices que indiquem a estrutura dos documentos e favoreçam a navegabilidade. Sugeriu o uso de templates reutilizáveis a serem aplicados durante a criação de documentos seja em HTML, Word, PDF ou outros formatos e indicou a validaçãoo de acessibilidade em ferramentas como Office 2010, HTML exportado via Dreamweaver ou PDF no adobe acrobat.

MAQ, Éfeso e o Bengala Legal

A terceira palestra da noite foi a do Marco Antonio de Queiroz – o MAQ – criador do Bengala Legal, site sobre Acessibilidade, Inclusão Social e Direitos Humanos; e também exemplo de como um site pode ser ao mesmo tempo acessível e visualmente agradável.

O site foi desenvolvido pelo Éfeso Gonçalves, entusiasmado defensor do Drupal, plataforma de gerenciamento de conteúdo que segundo a dupla oferece uma interface de gerenciamento muito superior em termos de acessibilidade a concorrentes como Joomla ou WordPress, e possibilita um alto grau de customização do painel de controle.

Durante a apresentação, Queiroz demostrou ao vivo a operação do Drupal publicando um post sobre o evento em seu site. Por fim, Éfeso demonstrou o uso de um plugin que aplica um efeito automático de contraste em páginas da web e em breve estará disponível para uso em qualquer site.

Reinaldo Ferraz, do W3C Brasil

O W3C é um consórcio que regula padrões de desenvolvimento para a web, e seu ramo brasileiro existe desde desde 2007, como iniciativa do comitê gestor da internet e do nic.br.

Ferraz mostrou a história da internet desde o surgimento do padrão HTML nos anos 90, até o presente com o HTML5. Mostrou como as tags são sugeridas e discutidas antes da implementação, e como hoje em dia vêm surgindo tags preocupadas com a acessibilidade.

Ressaltou a importância de separar a parte semântica da parte de formatação visual. Marcações e atributos relacionados à formatação foram removidos do HTML5 e agora cabem somente ao CSS: o HTML é puramente semântico. Não só por questões de acessibilidade ou SEO,  mas por questões de padronização da web.

Por fim, mostrou alguns atributos novos do HTML para uso em formulários que automatizam o desenvolvimento evitando o uso de JavaScript, o que agradou vários geeks presentes. Ferraz disponibilizou hoje cedo os slides de sua palestra.

Considerações Finais

Finalmente, deixo aqui meu agradecimento à Infnet, que além de oferecer o espaço para a realização do encontro, realizou sorteios de bolsas de estudos, distribuição de brindes como edições da revista Wide e CDs do cgi.br / nic.br contendo cartilhas, resultados de pesquisas, apostilas, guias de referência, cursos e tutoriais; além da consideração de ter telefonado na antevéspera do evento lembrando da data e confirmando a inscrição.

Bônus: versão acessível do Twitter

Durante a rodada de perguntas questionei sobre como pessoas com deficiência fazem o uso do twitter,  o MAQ prontamente apresentou um cliente de Twitter voltado para acessibilidade, o Qwitter Client (não confundir com a ferramenta de gerenciamento de followers de nome bem similar).

Ainda sobre o o twitter, o evento foi amplamente coberto através da hashtag #acessibilidadeweb pelos tuiteiros presentes @GugaAlves, @cristianoweb, @helaroberta, @georgegoncalo, @karin_watanabe entre outros, bem como pelos palestrantes @bengala_legal, @digitalacesso e @reinaldoferraz.

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